sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Economia da Islândia derrete e país teme quebra

Em poucas semanas, o governo da Islândia se reuniu para tratar de uma ameaça ao futuro da ilha: a elevação dos níveis do mar pelo derretimento das calotas polares. Hoje o problema é outro: o derretimento de sua economia. Ontem, o governo anunciou a nacionalização do maior banco do país e fechou a bolsa de valores, provocando a ira dos ingleses, que têm bilhões nos bancos da ilha. Para analistas, o país nórdico se transformou no exemplo mais concreto do que a crise pode fazer com uma das economias mais ricas do mundo, ameaçada até de "falência nacional".

Ontem mesmo, o Reino Unido ainda ameaçou ir à Justiça contra o governo da Islândia, pedindo indenizações de US$ 1,5 bilhão. Mais de cem prefeituras inglesas tinham investimentos em bancos islandeses e agora têm suas contas ameaçadas.

A Islândia também pode se tornar o primeiro país rico a pedir ajuda ao Fundo Monetário Internacional (FMI). "Nunca pensamos que isso aconteceria. A população vive um clima de insegurança", disse ao Estado um dos principais economistas do país, Snjólfur Ólafsson, professor do Instituto de Estudos Econômicos da Universidade de Reykjavik.

A Islândia tem apenas 304 mil habitantes, pouco menos que a população de Jundiaí (SP). Mas conseguiu nos últimos anos tornar-se um centro financeiro e referência mundial em qualidade de vida. Tem um dos índices de desenvolvimento social mais altos do planeta, elevada expectativa de vida, sistema educacional exemplar, 1% de desemprego e um dos maiores PIBs per capita: US$ 40 mil por ano por pessoa, mais de dez vezes superior ao do Brasil. Para os 304 mil habitantes, existem 340 mil celulares no país.

O problema é que grande parte dessa riqueza não estava baseada em sua produção de bacalhau e, sim, em atrair o sistema financeiro para a ilha. Os recursos depositados em bancos na Islândia chegaram a US$ 100 bilhões, ante um PIB de US$ 14 bilhões do país.

Depois de sucessivas crises nos anos 70 e 80, inflação de 100% e características de uma economia latino-americana, a Islândia optou por um modelo de desregulação total da economia. Friedman, Hayek e outros intelectuais do liberalismo não só apontaram o país como exemplo nos anos 90, como faziam freqüentes viagens e o transformaram em um campo de testes.

O governo privatizou empresas, a indústria de pesca, agência de viagens, gráficas, telefônicas e, claro, os bancos. O imposto de renda caiu pela metade e a carga tributária sobre fortunas foi abolida.

Mas, hoje, todos os modelos de desregulação estão sendo colocados no lixo pelo governo, que acaba de nacionalizar seus três maiores bancos. Ontem, foi a vez do Kaupthing, o maior banco do país, que em 26 de setembro declarou que o ano acabaria com "bons lucros". O Landsbanki e Glitnir também já haviam sido nacionalizados.

A bolsa de valores fechou, assim como todas as operações de câmbio, depois de uma desvalorização de mais de 50% da moeda local. As ações somente voltarão a ser negociadas na semana que vem, e o primeiro-ministro, Geir Haarde, já fala em risco de "falência nacional". Segundo ele, o país pagou o preço de estar se arriscando com volumes de dinheiro bem acima do que a economia de fato produz.

Mas o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, reclama que 300 mil clientes britânicos estão sem acesso a seus investimentos. O volume chegaria a quase US$ 1,5 bilhão, e o temor de Londres é de que o governo islandês não tenha como garantir esses depósitos. O resultado é que mais de cem prefeituras no Reino Unido também podem quebrar. Segundo o ministro das Finanças, Alastair Darling, o governo da Islândia reconhece que "não tinha como honrar suas obrigações". Em represália, Londres já congelou as ações dos bancos islandeses no Reino Unido.

"Aprendemos que não é sábio para um pequeno país tentar ter um papel de liderança no sistema financeiro internacional", disse o primeiro-ministro. O país, no melhor estilo de uma economia emergente, está recebendo uma missão do FMI. Além disso, a Rússia já anunciou que está disposta a emprestar 4 bilhões ao país.

Mundo está à beira da recessão, diz o FMI

O mundo está à beira de uma recessão e não há solução nacional para uma crise como esta, disse ontem o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn. "Cooperação e coordenação nas ações são o preço do êxito", acrescentou.

A ação mais urgente, segundo ele, é restabelecer a confiança nos mercados financeiros e a medida mais importante para isso deve ser a recapitalização dos bancos. "Não sairemos desta situação sem recapitalizar suficientemente as instituições financeiras", insistiu. (Ler abaixo artigo especial de Strauss-Khan.)

A cooperação, disse o diretor-gerente do FMI, tem de ir muito além do entendimento entre os membros do Grupo dos Sete (G-7), formado pelas maiores potências capitalistas (Estados Unidos, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá). É preciso, segundo ele, incluir no grupo mais quatro, cinco importantes atores da economia mundial. Mesmo assim, as soluções terão de valer para todos os países, "pois agora a crise envolve todo o mundo".

A ampliação do G-7 (G-8, quando a Rússia participa) é uma reivindicação do Brasil e de outros grandes países emergentes, mas o Strauss-Kahn não entrou nesses detalhes.

Ministros de Finanças e presidentes de bancos centrais das sete principais potências devem reunir-se hoje no Departamento do Tesouro americano. Essa reunião ocorre tradicionalmente como evento paralelo às assembléias do FMI. Os comunicados desses encontros são, em geral, previsíveis, mas, desta vez, o assunto é a maior crise desde os anos 30.

Já houve nesta semana uma grande ação coordenada, na quarta-feira, quando bancos centrais das economias mais desenvolvidas cortaram 0,5 ponto porcentual dos juros básicos. A iniciativa, embora considerada positiva, foi insuficiente para mudar o humor nos mercados. As bolsas continuaram a fechar em queda nos últimos dois dias. Ontem, o Índice Dow Jones da Bolsa de Nova York despencou 7,3%, levando o Ibovespa novamente para baixo.

A discussão no G-7 deverá envolver propostas de ações mais ambiciosas, como os amplos programas de auxílio a instituições financeiras já aprovados nos Estados Unidos e no Reino Unido. O diretor-gerente do FMI, normalmente convidado para esses encontros do G-7, deverá insistir nas idéias de recapitalização, recolhimento de ativos podres (já autorizado pelo Congresso americano) e garantias para os depositantes.

Haverá pressão, provavelmente, sobre a maioria dos membros da União Européia e sobre o Japão. Dentre os europeus, só o governo do Reino Unido tem acompanhado mais ou menos de perto a ação mais ampla desenvolvida pelas autoridades americanas.

Ontem, Strauss-Kahn cobrou cooperação principalmente dos governos da Europa, insistindo num ponto já tocado por outros dirigentes do FMI. Mas ele demonstra ambicionar um papel mais amplo para o FMI. Esta crise, insistiu, não será resolvida só com os instrumentos monetários e fiscais. Os governos terão de usar também instrumentos financeiros. O Fundo, segundo ele, é a única instituição internacional capaz de trabalhar com os vínculos entre os setores financeiro e real.

No sábado, o espetáculo será mais amplo, com a reunião extraordinária, marcada para as 18 horas, do Grupo dos 20 (G-20), formado por grandes economias desenvolvidas e emergentes. A convocação do encontro foi sugerida pelo secretário do Tesouro americano, Henry Paulson, ao ministro da Fazenda, Guido Mantega, presidente do grupo neste ano.

Além dos membros do G-7, o G-20 inclui Brasil, África do Sul, Arábia Saudita, Argentina, Austrália, China, Índia, Indonésia, México, Rússia, Coréia do Sul e Turquia. A União Européia também é representada como bloco.

Os ministros do Brasil e de outros emergentes poderão reclamar da crise causada pelas instituições financeiras do mundo rico e cobrar ações corretivas, mas a turbulência internacional afeta seus países de forma diferenciada. Apresentam graus diferentes de vulnerabilidade nas contas externas e diferentes níveis de inflação e de solidez nas contas públicas.

Para o Brasil, comentou Strauss-Kahn, a crise terá como principal conseqüência a redução do crescimento, de 5,2% em 2008 para 3,5% em 2009, segundo a estimativa contida no Panorama Econômico Mundial divulgado no dia anterior.

Nenhum país está imune à crise, repetiu o diretor-gerente do FMI, "mas o Brasil tem fundamentos fortes, a política econômica foi administrada corretamente nos últimos anos, um monte de reservas foi acumulado e a economia do País está em boa forma".

Bem mais complicada que a dos emergentes é a situação dos países pobres, em geral importadores de alimentos e, em muitos casos, também de petróleo. É a "outra crise", segundo a expressão de Strauss-Kahn.

O presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, tratou principalmente da situação desses países, na entrevista concedida também ontem na sede do FMI. Em julho, numa reunião do G-8, lembrou Zoellick, ele mencionou o duplo impacto sofrido pelos países em desenvolvimento - a alta de preços do petróleo e da comida.

"Agora, o golpe é triplo - comida, combustível e finanças - ameaçam não só derrubar as pessoas pobres, mas mantê-las no chão", disse Zoellick. Aos países mais pobres e sujeitos a dificuldades maiores, o Fundo já oferece ajuda financeira e assistência técnica, por meio de um programa especial, lembrou Strauss-Kahn, e continuará a oferecer enquanto se prolongarem os efeitos da crise.

Esses países foram atingidos principalmente pelo aumento dos preços de produtos básicos e sua situação ainda é grave, mesmo com o recuo das cotações dos produtos agrícolas e do petróleo. E os pobres, lembrou Strauss-Khan, são os primeiros a ser afetados pela inflação.

Roubini fala em depressão e crise sistêmica global

O economista Nouriel Roubini, o bola de cristal de ouro do mundo, que previu tudo isso que está aí, mandou para seus clientes uma análise demolidora sobre os próximos riscos.

O que pode acontecer de pior a um sistema financeiro? O risco sistêmico. Pior que isso só um risco sistêmico global. É o que ele acha que pode acontecer agora.

O que de pior pode acontecer à economia real? Uma depressão. Pois esta palavra está na análise dele.

O pior de Roubini é que quando ele previu a recessão, a crise financeira e a quebra de instituições até como a gigante Fannie Mae e Freddy Mac ele foi ridicularizado pelos economistas do mundo inteiro. Riram dele. Isso foi em 2006. Em 2007, ninguém mais achava muita graça, mas a frase mais comum sobre que ouvi de alguns bons economistas brasileiros é: até relógio está certo duas vezes por dia. O pior de Roubini é que ele tem estado certo o tempo todo. E agora dobra a aposta. "O mundo está em um severo risco de um derretimento financeira global sistêmico e uma severa depressão global".

Ele acha que por isso é necessário uma ação urgente global. Como o G-7 está reunido neste fim de semana, quem sabe eles são tomados pelo sentido de urgência.

Quando ele fala global, ele está falando principalmente de "Estados Unidos e economias desenvolvidas". Ufa! nunca gostei tanto de não estar na lista dos países mais ricos. O problema é que os Estados Unidos, Europa, Japão, Canadá, Austrália, Nova Zelândia representam, ele lembrou, 55% do PIB mundial e por isso afetarão todos os outros países se entrarem todos em recessão.

-Por isso, mesmo países com bom desempenho como os Brics - Brasil, Russia, India e China, estão sob ameaça de um "hard landing" ( uma queda forte e rápida do nível de atividade).

A tese dele desde o começo é que existia um sistema bancário na sombra. São os fundos, bancos de investimento, brokers dealers, não bancos emissores de hipotecas, firmas de private equities, tudo aquilo que estava fora do radar das autoridades. Ele disse que agora está se vendo um desmonte desse sistema das sombras e isso é que está por trás da queda livre das ações e da paralisação do sistema bancário com as taxas de riscos subindo muito e os negócios parando.

Previsões pessimistas têm uma vantagem: alertam as autoridades para o tamanho do risco e por isso ajudam a prevenir o pior. Essa é a grande vantagem de Roubini, que tem sido o mais pessimista dos economistas do mundo e tem acertado com uma precisão de relógio, infelizmente. Em parte porque quem deveria levá-lo a sério ainda não levou. Acham que ele é um exagerado.

US$ 4 trilhões desapareceram das Bolsas esta semana

A gente se animava com algumas horas de alívio, mas durou pouco. Está virando desespero novamente. O alívio durou pouco porque toda hora aparece um novo fantasma voando. Por exemplo, muitos investidores que compraram papéis do Lehman Brothers tinham se garantido e comprado também um seguro contra esse papel. Quem vendeu o seguro agora vai ter que pagar. Portanto, o Lehman Brothers quebrou há quase um mês, no dia 15 de setembro, mas ainda está provocando medo e prejuízo.

A Islândia, que é um país muito pequeno, possui depósitos nos bancos que são dez vezes o seu PIB. E na quinta-feira, o governo avisou que os bancos estão quebrados e que ele só vai garantir depósito dos islandeses. Com isso, há muito dinheiro inglês que agora está congelado na terra do gelo. Em resposta, a Inglaterra reagiu usando uma lei antiterror dizendo que também está congelando dinheiro islandês no país.

Só nesta semana, US$ 4 trilhões desapareceram das Bolsas de Valores. São quase R$ 9 trilhões. Três Brasis desapareceram. Este dinheiro, na verdade, é um dinheiro um pouco virtual, porque as pessoas só o teriam na mão se vendessem as ações. O prejuízo só vira realidade se você vende ação, tornando-o real.

O novo plano do secretário de Tesouro americano, Henry Paulson, de ser sócio dos bancos e ter ações dos bancos representa o fim do capitalismo. Nos Estados Unidos, o Tesouro vai ser banqueiro, dono dos bancos, significa também que aquele plano de US$ 700 bilhões tão falado, tão comentado e tão discutido, fracassou, porque já estão passando para um plano B, que é virar donos dos bancos.

As perdas milionárias não se resumem às Bolsas. A crise fez novas vítimas no setor produtivo. No Brasil, a queda das ações tem outra razão, que é só nossa: os prejuízos das empresas brasileiras com o dólar alto.

Sadia e Aracruz já anunciaram seus prejuízos. A Votorantim, uma das maiores empresas brasileiras, disse que perdeu dinheiro também. Não anunciou quanto, mas tranqüilizou o mercado: já encerrou todos os negócios no futuro de dólar, aquelas apostas de que o dólar não subiria e que estão prejudicando as empresas, provocando prejuízos.

Na quinta-feira, foi a Cosan, empresa de açúcar e álcool, a anunciar que o dólar alto vai aumentar suas receitas, mas também a sua dívida. Empresas imobiliárias também estão caindo na Bolsa por medo de que o setor tenha que adiar planos e investimentos.

O Banco Central está se preparando para dias piores. A regulamentação dessa última medida provisória mostrou que ele pode ir muito além da ação tradicional do BC.

O que é normal? Emprestar pelo redesconto, esta espécie de “cheque especial” para os bancos, por prazo curto. Nesses casos, o Banco Central recebe como garantia título público. Isso sempre foi feito. Agora, o BC poderá aceitar como garantia empréstimo consignado, crédito para compra de veículo, financiamento imobiliário – o que os bancos tiverem em carteira.

O BC pode emprestar por um ano para os bancos, mas interfere na administração: limita os salários dos executivos e os dividendos dos acionistas. Isto é uma cópia do que foi feito nos Estados Unidos.

Mas o Brasil não tem uma situação como a dos americanos, sempre é bom frisar isso. O Banco Central está apenas querendo ter agilidade caso essa crise de crédito externo traga algum problema para bancos brasileiros. A venda de reservas melhorou o clima no mercado de câmbio, mas talvez ele tenha que fazer novas vendas de reserva. Tem gente que critica, mas as reservas eram para enfrentar dias chuvosos e está chovendo um bocado.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Brigitte Bardot chama Sarah Palin de "irresponsável"


A ex-atriz francesa Brigitte Bardot enviou nesta terça-feira uma carta aberta a Sarah Palin, governadora do Alasca republicana que concorre para vice-presidente dos Estados Unidos, acusando-a de "total irresponsabilidade" com o ambiente. "Em nome do respeito e da preservação da natureza, desejo que você perca essas eleições, já que o mundo sairá ganhando."

Bardot é presidente da fundação de defesa dos animais que leva seu nome.
AP
Sarah Palin tem o hobby de caçar no Alasca; ativista, a ex-atriz francesa Brigitte Bardot criticou a candidata a vice republicana
Sarah Palin tem o hobby de caçar no Alasca; ativista, a ex-atriz francesa Brigitte Bardot criticou a candidata a vice republicana

"Senhora, ao negar a responsabilidade dos seres humanos no aquecimento global, ao militar em favor do porte de armas e do direito de dispará-las no que quer que seja [Palin tem como hobby caçar], e com falas de uma desconcertante estupidez, você envergonha as mulheres e representa uma terrível ameaça, uma verdadeira catástrofe ecológica", escreveu a ex-atriz.

Bardot ressaltou que Palin defende a exploração de petróleo na Reserva Nacional de Vida Selvagem e é contra a proteção de ursos polares, ameaçados pelo aquecimento global, "o que é testemunho da sua total irresponsabilidade, da sua incapacidade de proteger ou de, simplesmente, respeitar a vida animal".

Recentemente, Palin recuou da afirmação de que o aquecimento global não é fruto dos atos humanos para se alinhar ao companheiro de chapa, John McCain. Ela afirmou que, de fato, "os cientistas provaram" que as ações humanas "certamente podem estar contribuindo para a questão do aquecimento global".

No debate contra o candidato a vice democrata, Joe Biden, na última quinta-feira (2), Palin disse que quer "fazer algo" contra o aquecimento global. "Não vou culpar só as atividades humanas pela mudança climática pois o clima do mundo tem fases cíclicas, e na história temos visto mudanças".

Fonte: Folha online

A crise já é global e não pára - Miriam Leitao

A crise é global e não só dos EUA, deu o recado o presidente americano, George W. Bush. Algumas das medidas que já aconteceram em vários países pelo mundo:

- EUA: recessão, bancos quebrados e pacote de socorro de US$ 700 bilhões; país de nascimento do famoso “sub-prime”. Bush que agora fala diariamente sobre o assunto admitiu que a crise americana virou uma crise global.

- Inglaterra: recessão e socorro a bancos Northern Rock, e Bradford & Bingley.

- União Européia: países em recessão, estatização de banco na Alemanha, reuniões constantes de líderes, elevação de garantias para depósitos.

- Islândia: estatização de todos os bancos do país e um pedido de empréstimo à Rússia.

- Irlanda: governo se comprometeu e é obrigado a garantir depósitos bancários para evitar corrida e saques.

- Rússia: Injeção de quase US$ 40 bi em bancos estatais. Bolsas paralisam por quedas no pregão várias vezes.

- Brasil: dois circuit breaks em um dia, pela primeira vez desde 1999, pacote do governo injetar liquidez no mercado.

- Austrália: corte de juros em 1 ponto percentual.

- Israel: corte de juros em 0,50 ponto percentual.

- Bélgica: elevou a garantia bancária até US$100 mil.

- Espanha: criou um fundo de 30 bilhões de euros e elevou garantias para depósitos.

- Dinamarca: subiu juros para 5% para proteger a moeda.

E com certeza teve mais. Quem lembrar, pode comentar.

''The giant sucking sound'' Ilan Goldfajn

As conseqüências da crise chegaram definitivamente ao Brasil. Ao fundo, escuta-se um som gigante. É o crédito sendo sugado e desaparecendo em todos os cantos do mundo. Quem precisa de crédito para terminar um projeto ou simplesmente financiar seu negócio está com dificuldades: o crédito doméstico tem ficado mais escasso e caro, como resultado da busca de alternativas ao financiamento externo. O Brasil está (estava?) no auge do ciclo de investimentos. Como será o fim desta crise? Como o Brasil deve reagir?

Nos EUA, o "giant sucking sound" (som de sucção gigante) costuma se referir à perda de empregos para o resto do mundo. Ross Perot, candidato à eleição presidencial americana de 1992, cunhou a expressão na sua investida contra o tratado de livre comércio dos EUA com o México (e Canadá). Depois, outros políticos a usaram temendo perdas de emprego para a Europa Oriental e, finalmente, para a China. Não ocorreram as temidas perdas de emprego nos EUA. Agora, essa expressão pode ser usada no sentido contrário. Quem estaria sugando o resto do mundo é o sistema financeiro nos EUA (e na Europa). Sugando capital e crédito, não empregos. E o resto do mundo está sentindo essa pressão.

Há pelo menos dois canais de transmissão da crise externa para o Brasil. O primeiro é o canal financeiro. A crise financeira internacional caracteriza-se por uma necessidade aguda de capital por parte das instituições financeiras que vendem ativos e restringem o crédito. A redução do crédito atinge clientes no mundo todo, sejam americanos, chineses ou brasileiros. A falta de crédito espalha-se pelo mundo. Por exemplo, no momento em que clientes brasileiros ficam sem crédito lá fora, recorrem aos bancos no Brasil, o que aumenta sobremaneira a necessidade de recursos e pressiona o mercado aqui dentro. O crédito doméstico fica escasso e consideravelmente mais caro. A falta de crédito também se espalha pelo receio de dias piores pela frente, questiona-se o grau de inadimplência adiante.

O leitor deve estar-se perguntando: para onde está indo todo esse dinheiro que se está retraindo? O que significa fazer caixa, recompor capital?

No limite, significa aplicar os recursos em ativos considerados seguros (baixíssimo risco de calote) e de alta liquidez (disponíveis imediatamente sem custo). Os investidores têm desconfiado cada vez mais dos bancos e de outras instituições financeiras. Resta investir nos governos, comprando seus títulos, que estão cada vez mais demandados e, conseqüentemente, mais caros (pagando juros cada vez menores). Paradoxal, para alguns (já que os EUA são o centro da crise), os títulos do governo americano têm sido considerados os mais seguros e o dólar se tem valorizando em relação às outras moedas do mundo.

Na medida em que o fluxo de recursos está indo em direção aos governos, estes têm tentado reciclá-los de volta ao sistema, na medida do possível. Os bancos centrais das economias desenvolvidas têm oferecido linhas de financiamento e empréstimos aos bancos. Os governos também têm resgatado instituições (como a seguradora AIG, nos EUA, e o Banco Fortis, na Europa) e aprovado pacotes de ajuda (como os U$ 700 bilhões dos EUA). Mas o aperto continua.

O segundo canal de transmissão da crise é via queda dos preços e volumes das exportações brasileiras. Nos últimos anos, com o bom momento da economia mundial, tanto o volume quanto os preços das nossas exportações subiram consideravelmente (os preços subiram 120% de janeiro de 2003 a julho 2008), gerando superávits comerciais, assim como as importações, permitindo um crescimento maior da economia, sem aumento da inflação. Agora, os preços das exportações (bem como os volumes) estão recuando, invertendo a direção dos efeitos acima.

Qual a conseqüência desta crise? O PIB mundial deve desacelerar significativamente, assim como o do Brasil. Economistas estimam - na medida do possível, dada a incerteza elevada, hoje - um crescimento médio em torno de 3%-3,5% para o ano que vem. Essa taxa poderia ser considerada moderada, mas não muito. Se o Brasil parar de crescer a partir de janeiro, a média do produto interno bruto (PIB) de 2009 ainda vai ser maior que a média de 2008 em 1,4% (o chamado "carry" do crescimento). Um crescimento de 3% em 2009 significa um crescimento marginal nesse ano em torno de apenas (ou será ainda?) 1,6%.

Qual deveria ser a reação de política econômica no Brasil? Deveríamos ter uma política anticíclica tentando substituir a falta de crédito externo pelo interno?

Na minha visão, nem tanto ao mar, que afunde todo mundo, nem tanto à terra, de forma a ignorar a necessidade do ajuste aos novos tempos. Por um lado, é fundamental assegurar o funcionamento dos mercados no Brasil, provendo liquidez quando há paralisia, evitando que haja uma parada brusca de crédito no País, que pode ter conseqüências mais acentuadas sobre a economia brasileira. Nesse sentido, o Banco Central tem lançado medidas como a redução de compulsórios, em casos específicos, e o leilão de linhas de financiamento em dólares. Por outro lado, uma intervenção maciça do governo, por meio dos bancos públicos, para tentar manter o crescimento nos níveis atuais (5,5%-6%), poderia ser ineficaz, apenas inflacionária (por exemplo, essa política pressionaria a conta corrente, num ambiente sem financiamento internacional adequado, e levaria à depreciação do câmbio).

Em suma, há um som de sucção no ar, o crédito está-se retraindo no mundo. O período de bonança na economia mundial rapidamente se esvaiu, assim como o período de opções fáceis. Decisões adequadas neste momento podem significar uma melhor travessia da crise e uma saída em posição internacional favorável no futuro.

Ilan Goldfajn, sócio da Ciano Investimentos, diretor do Iepe da Casa das Garças, é professor da PUC-Rio. E-mail: igoldfajn@cianoinvest.com.br