Crise chegou ao Brasil por vários canais
A crise chegou ao Brasil por vários canais. Em alguns deles, o Banco Central começou a agir. Ela chegou fechando o mercado de crédito que trazia empréstimos externos para financiar exportadores. Para isso, o Banco Central avisou que emprestará dólares das reservas a bancos para que eles reemprestem para essas empresas exportadoras.
O problema é que não é um buraco pequeno. As empresas recebiam os dólares adiantados, meses antes de embarcar. Com esse dinheiro, aplicavam aqui dentro e ganhavam muito dinheiro com os juros. Só que as exportadoras adiantaram tanto que mercadoria que vai ser exportada daqui a quatro meses, por exemplo, já está paga e o dólar não vai entrar.
Outro problema que assusta o mercado é que muitas empresas fizeram operações financeiras no mercado futuro de câmbio. Elas se comprometeram a entregar o dólar a um preço definido. Por exemplo, a R$ 1,70. Apostavam que o dólar não subiria e agora terão um enorme prejuízo quando forem cumprir os contratos.
Essas empresas terão que comprar caro para entregar a um preço mais baixo. Quanto a isso, segundo me informou uma fonte do governo, não há muito o que o Banco Central possa fazer. Essas empresas não terão ajuda.
A falta de crédito provocada pelo fim das linhas externas fez com que os bancos grandes parassem de emprestar aos pequenos. Na semana passada, o governo liberou dinheiro para os bancos grandes ajudarem os pequenos. Ainda não funcionou e, por isso, a medida provisória de ontem cria as condições para que o Banco Central ajude os pequenos bancos e evite um problema mais grave.
Na economia real, eu falei com várias empresas sobre planos de investimentos. Elas não estão ainda anunciando suspensão, mas várias admitiram que estão pondo seus planos em banho-maria, esperando melhores tempos.
Parece que as pessoas não confiam mais nos bancos lá fora. A crise se espalha pelo mundo de forma rápida e contamina a economia real. Há esses dois motivos de preocupação: de um lado, bancos e instituições financeiras do mundo inteiro que vão sendo atingidos, porque outros foram atingidas. É o contágio. É a intensidade das relações financeiras entre bancos de vários países. Por outro lado, os sinais de recessão se espalham.
No Brasil, sempre se achou que a China seguraria o crescimento mundial, mas lá na China eles estão preocupados. O comércio da China com os Estados Unidos é de US$ 300 bilhões. O primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, deu uma entrevista nos Estados Unidos admitindo que há muita ligação entre o mercado financeiro americano e o chinês. Ele, que tem US$ 1 trilhão de reservas e taxa de poupança de 40% do PIB, disse que está preocupado com a crise. Até a China.
terça-feira, 7 de outubro de 2008
domingo, 5 de outubro de 2008
A ARQUITETURA FINANCEIRA - FHC
Os mecanismos de formação de crises financeiras e o modo de sua propagação são conhecidos. A situação atual repete o enredo: abundância de financiamentos, voracidade dos consumidores, relaxamento dos mecanismos de avaliação de risco, falta de fiscalização das entidades emprestadoras e confiança "inabalável" em que haverá sempre quem empreste e quem pague.
Iniciada no setor imobiliário, houve um complicador de "engenharia financeira" na presente crise. Os preços das casas nos EUA e na Europa estavam subindo há muito tempo. Havia empréstimos fáceis e abundantes para a compra. Os consumidores poderiam pagá-los a perder de vista e revender os imóveis, para comprar outros maiores ou realizar o lucro. Os bancos e instituições de crédito imobiliário revendiam os empréstimos sob a forma de títulos hipotecários. Havia investidores ávidos por comprá-los, assim como intermediários para realizar as operações de venda ao público em escala global: os bancos de investimento e os bancos comerciais, com seus "veículos de investimentos estruturados", criados com esse propósito. Sobrava-lhes capacidade e criatividade para gerar novos produtos financeiros com base nesses créditos. Eles sabem como fatiá-los, misturá-los entre si e juntá-los a créditos representativos de outros ativos. Essa alquimia, diziam, dilui o risco e multiplica os canais de financiamento por toda a economia, fazendo o dinheiro fluir das mãos de quem tem e quer aplicar para as mãos de quem quer tomar emprestado para comprar (imóveis, mas não apenas). A economia cresce, as empresas lucram, os ativos se valorizam e todo mundo ganha. Até que... a bolha furou.
A economia globalizada funciona em vasos comunicantes. O que um agente financeiro faz outro imita, e não só no país originário: umas financeiras vendem às outras em toda parte do mundo. O sistema financeiro funcionou fora dos controles dos bancos centrais e mesmo com a indulgência deles. Sem transparência nas operações, tornou-se difícil avaliar os riscos e garantir a confiança. De uma crise de liquidez de quem não tinha como honrar os compromissos se passou a uma crise de confiança: ninguém confia em ninguém para emprestar dinheiro, nem mesmo os bancos para emprestarem uns aos outros. O crédito seca. Só depois da crise propagada os bancos centrais injetaram os trilhões de dólares. Pior: deixaram margem para a suspeita de que, mais do que salvar o sistema, salvavam fortunas pessoais à custa do contribuinte.
Há séculos se sabe que o remédio contra a exacerbação irracional dos mercados é a regulação e a transparência. Mas disso só há recordação depois que a "bolha" estoura. E não adianta saber, como sabíamos, que os fundamentos da economia americana estavam bambos, com o espantoso déficit gêmeo de 5% ou mais do PIB nas contas internas e externas e com um governo gastando em guerras e diminuindo o imposto dos ricos. Quando o frenesi do lucro fácil motiva as pessoas, elas agem como manadas: todas dispostas a comprar. Quando a bolha estoura, todos dispostos a vender. Ao diabo os fundamentos da economia...
O resultado está à vista de todos: quebra generalizada de confiança. Ninguém sabe ao certo a solidez de cada instituição financeira nem de cada empresa, pois elas também podem ter entrado na febre das hipotecas e derivativos. Os investidores, especuladores, clientes em geral, na dúvida, correm para colocar seus haveres num porto seguro. Até há pouco, no dólar e em papéis emitidos pelo banco central americano. Até quando a China e os demais países continuarão a confiar no dólar? Na crise dos anos 1970, quando o governo Nixon quebrou a paridade entre o dólar e o ouro, os americanos fizeram o ajuste de seus desatinos fiscais desvalorizando sua moeda à custa do mundo, com inflação e tudo. Os desatinos da era Bush irão pelo mesmo caminho? Há, contudo, uma diferença: existe o euro. E há outras diferenças mais, a China é forte e há outras economias emergentes. O jogo do empurra-empurra está apenas começando. A verdadeira batalha virá depois: quem pagará, de fato, os custos do ajuste que terá de ser feito?
Certamente, de modo direto ou indireto, o mundo todo pagará. Inclusive o Brasil: as linhas de crédito estão secas para o comércio exterior, haverá dificuldades para financiar novos investimentos, as bolsas e o real ziguezagueiam, o "risco país" aumenta, a taxa de crescimento será reduzida, haverá diminuição da demanda global. Cobrarão seu preço, agora, os seis anos perdidos em dúvidas e batalhas ideológicas sobre o modelo de investimento para os setores de infra-estrutura. Com o capital até há pouco abundante poderíamos ter completado o salto iniciado nos anos 90. Temos, porque foram preservados, os instrumentos para uma boa gestão da economia: a política de metas de inflação, a Lei de Responsabilidade Fiscal e um câmbio flutuante respaldado por reservas internacionais robustas, além de um sistema financeiro saudável, graças ao saneamento feito via Proer e Proes. Assim, se deixarmos de lado o escapismo de pensar que não temos nada com a crise "americana", temos chances de sobreviver e retomar o crescimento sustentável.
É hora de retornar à questão da reforma da "arquitetura financeira global", como dizia o presidente Clinton. Enquanto estive na Presidência, insisti por cartas aos chefes de Estado e governo do G-8 que a regulação financeira mundial era precária; o FMI, impotente ou enviesado; o Banco Mundial, apequenado pelo vulto dos investimentos privados. Os esforços regulatórios do BIS (o banco de Basiléia que emite normas para todos os bancos centrais) não eram obedecidos por todos, como não são ainda. Basta dizer que, enquanto os bancos brasileiros não emprestam mais do que 12 vezes seu capital e suas reservas, nos EUA instituições financeiras "alavancadas" emprestam até 50 vezes!
O Brasil, a China, os demais países de economias emergentes e a própria Europa devem voltar ao tema da regulação global. Quem sabe, convocando um novo Bretton Woods, para criar um mecanismo regulador que utilize como reserva uma cesta de moedas composta não só por dólares, mas que inclua o euro, o iene, o renminbi e, no futuro, talvez até o real, depois de ele se tornar conversível?
Não custa, no meio do pesadelo, sonhar um pouco
Iniciada no setor imobiliário, houve um complicador de "engenharia financeira" na presente crise. Os preços das casas nos EUA e na Europa estavam subindo há muito tempo. Havia empréstimos fáceis e abundantes para a compra. Os consumidores poderiam pagá-los a perder de vista e revender os imóveis, para comprar outros maiores ou realizar o lucro. Os bancos e instituições de crédito imobiliário revendiam os empréstimos sob a forma de títulos hipotecários. Havia investidores ávidos por comprá-los, assim como intermediários para realizar as operações de venda ao público em escala global: os bancos de investimento e os bancos comerciais, com seus "veículos de investimentos estruturados", criados com esse propósito. Sobrava-lhes capacidade e criatividade para gerar novos produtos financeiros com base nesses créditos. Eles sabem como fatiá-los, misturá-los entre si e juntá-los a créditos representativos de outros ativos. Essa alquimia, diziam, dilui o risco e multiplica os canais de financiamento por toda a economia, fazendo o dinheiro fluir das mãos de quem tem e quer aplicar para as mãos de quem quer tomar emprestado para comprar (imóveis, mas não apenas). A economia cresce, as empresas lucram, os ativos se valorizam e todo mundo ganha. Até que... a bolha furou.
A economia globalizada funciona em vasos comunicantes. O que um agente financeiro faz outro imita, e não só no país originário: umas financeiras vendem às outras em toda parte do mundo. O sistema financeiro funcionou fora dos controles dos bancos centrais e mesmo com a indulgência deles. Sem transparência nas operações, tornou-se difícil avaliar os riscos e garantir a confiança. De uma crise de liquidez de quem não tinha como honrar os compromissos se passou a uma crise de confiança: ninguém confia em ninguém para emprestar dinheiro, nem mesmo os bancos para emprestarem uns aos outros. O crédito seca. Só depois da crise propagada os bancos centrais injetaram os trilhões de dólares. Pior: deixaram margem para a suspeita de que, mais do que salvar o sistema, salvavam fortunas pessoais à custa do contribuinte.
Há séculos se sabe que o remédio contra a exacerbação irracional dos mercados é a regulação e a transparência. Mas disso só há recordação depois que a "bolha" estoura. E não adianta saber, como sabíamos, que os fundamentos da economia americana estavam bambos, com o espantoso déficit gêmeo de 5% ou mais do PIB nas contas internas e externas e com um governo gastando em guerras e diminuindo o imposto dos ricos. Quando o frenesi do lucro fácil motiva as pessoas, elas agem como manadas: todas dispostas a comprar. Quando a bolha estoura, todos dispostos a vender. Ao diabo os fundamentos da economia...
O resultado está à vista de todos: quebra generalizada de confiança. Ninguém sabe ao certo a solidez de cada instituição financeira nem de cada empresa, pois elas também podem ter entrado na febre das hipotecas e derivativos. Os investidores, especuladores, clientes em geral, na dúvida, correm para colocar seus haveres num porto seguro. Até há pouco, no dólar e em papéis emitidos pelo banco central americano. Até quando a China e os demais países continuarão a confiar no dólar? Na crise dos anos 1970, quando o governo Nixon quebrou a paridade entre o dólar e o ouro, os americanos fizeram o ajuste de seus desatinos fiscais desvalorizando sua moeda à custa do mundo, com inflação e tudo. Os desatinos da era Bush irão pelo mesmo caminho? Há, contudo, uma diferença: existe o euro. E há outras diferenças mais, a China é forte e há outras economias emergentes. O jogo do empurra-empurra está apenas começando. A verdadeira batalha virá depois: quem pagará, de fato, os custos do ajuste que terá de ser feito?
Certamente, de modo direto ou indireto, o mundo todo pagará. Inclusive o Brasil: as linhas de crédito estão secas para o comércio exterior, haverá dificuldades para financiar novos investimentos, as bolsas e o real ziguezagueiam, o "risco país" aumenta, a taxa de crescimento será reduzida, haverá diminuição da demanda global. Cobrarão seu preço, agora, os seis anos perdidos em dúvidas e batalhas ideológicas sobre o modelo de investimento para os setores de infra-estrutura. Com o capital até há pouco abundante poderíamos ter completado o salto iniciado nos anos 90. Temos, porque foram preservados, os instrumentos para uma boa gestão da economia: a política de metas de inflação, a Lei de Responsabilidade Fiscal e um câmbio flutuante respaldado por reservas internacionais robustas, além de um sistema financeiro saudável, graças ao saneamento feito via Proer e Proes. Assim, se deixarmos de lado o escapismo de pensar que não temos nada com a crise "americana", temos chances de sobreviver e retomar o crescimento sustentável.
É hora de retornar à questão da reforma da "arquitetura financeira global", como dizia o presidente Clinton. Enquanto estive na Presidência, insisti por cartas aos chefes de Estado e governo do G-8 que a regulação financeira mundial era precária; o FMI, impotente ou enviesado; o Banco Mundial, apequenado pelo vulto dos investimentos privados. Os esforços regulatórios do BIS (o banco de Basiléia que emite normas para todos os bancos centrais) não eram obedecidos por todos, como não são ainda. Basta dizer que, enquanto os bancos brasileiros não emprestam mais do que 12 vezes seu capital e suas reservas, nos EUA instituições financeiras "alavancadas" emprestam até 50 vezes!
O Brasil, a China, os demais países de economias emergentes e a própria Europa devem voltar ao tema da regulação global. Quem sabe, convocando um novo Bretton Woods, para criar um mecanismo regulador que utilize como reserva uma cesta de moedas composta não só por dólares, mas que inclua o euro, o iene, o renminbi e, no futuro, talvez até o real, depois de ele se tornar conversível?
Não custa, no meio do pesadelo, sonhar um pouco
sábado, 4 de outubro de 2008
MISSAO IMPOSSIVEL - MERVAL PEREIRA
NOVA YORK. Para se ter uma idéia de quanto é difícil a tarefa de John McCain de derrotar Barack Obama nas eleições de novembro, basta relembrar uma passagem do debate de quinta-feira entre os candidatos a vice. Sarah Palin acusou o programa de corte de impostos de Obama, que estava sendo defendido por Joe Biden, de ser um “exterminador de empregos”, pois penalizaria os pequenos negócios. Ontem, já de manhã, saiu o número oficial de desemprego no país, que aumentou em 159 mil pessoas em setembro último, mais do dobro do que em agosto e julho. Foi a maior perda mensal de emprego desde 2003.
Foi o bastante para que Obama batesse na tecla de que continuar com a mesma política econômica de Bush mais quatro anos seria desastroso. Previamente derrotada pelo pressentimento generalizado de que não resistiria à experiência e ao conhecimento de política externa do democrata Joe Biden, a candidata republicana Sarah Palin saiuse surpreendentemente bem, o que não quer dizer que esteja preparada para assumir o poder em caso de necessidade.
Palin mostrou-se uma simpática dona-de-casa de classe média, e esteve tão à vontade que foi irônica em diversas ocasiões, mesmo enfrentando um dos ícones do Senado americano. Estava tão senhora de si que acusou a proposta Obama-Biden para o Iraque de ser “uma bandeira branca de rendição”.
E foi sarcástica ao com e n t a r q u e “ v o c ê s d e Washington são engraçados”, ao se referir aos votos de Biden a favor de intervenções militares dos Estados Unidos, inclusive no Iraque, e sua defesa agora do fim da guerra.
Esse apelo ao patriotismo, e a defesa de valores morais mais conservadores, juntamente com sua juventude, foi o que a tornou um sucesso de público desde que escolhida, e poderia contrabalançar a força natural que os democratas sempre tiveram nesta corrida presidencial.
Mas a crise econômica tornou praticamente impossível a tática da campanha de McCain de distanciálo da gestão Bush, marcandoo, e depois a própria Palin, como políticos independentes dentro do Partido Republicano, longe das cúpulas que fazem politicagem em Washington.
Além do fato de que o “maverick” McCain votou s e m p re c o m o g o v e r n o Bush, como salientou muito bem Joe Biden durante o debate dos vices, é forçar muito a barra marcar sua candidatura como distante da cúpula partidária, quando há montes de cenas filmadas dele ora com o velho George Bush pai, ora com Kissinger, de quem se orgulha de ser amigo há 35 anos.
Nesse item, a própria Palin veste melhor esse figurino, mas ela estava distante da cúpula partidária não por opção, mas por questões geográficas e políticas.
O Alasca não é um estado importante que mereça a atenção no jogo político, e ela só entrou na luta principal por ser uma desconhecida, mas com jeito de miss.
Quando o foco da discussão pública, porém, passa a ser a economia, com os efeitos da crise chegando ao cidadão comum, é constrangedor o candidato do partido oficial prometer medidas e atitudes que não foram tomadas nos últimos oito anos, e nem foram exigidas por ele.
O fato concreto é que Bush chega ao final de seu mandato com uma popularidade em torno de 20%, a mais baixa de toda a história republicana, ao contrário do que aconteceu logo depois dos ataques de 2001.
Naquele período, ele recebeu a maior consagração popular registrada na história recente americana, tendo atingido índices nas pesquisas de opinião maiores ainda que os de seu pai, também na Guerra do Golfo.
Naquela altura, o sucesso do governo era tanto que o líder da maioria na Câmara, Tom DeLay, previa que a hegemonia dos republicanos poderia durar décadas.
Como seu pai, por causa sobretudo da economia, George Bush termina o governo pessimamente avaliado, uma gestão que é responsabilizada pela “morte da marca republicana”, que a escolha de Sarah Palin reavivou por alguns momentos.
Mesmo essa tentativa de ressurreição foi artificial, jogando a candidatura de McCain para a direita, que o rejeitava por ser considerado muito “liberal”.
As dificuldades começam por aí: o último exemplo de sucesso dos republicanos na Casa Branca possível para McCain e Sarah Palin lembrarem é Ronald Reagan, há 20 anos, enquanto os democratas têm na figura de Bill Clinton uma referência mais recente de sucesso, e justamente resolvendo os problemas econômicos deixados pelo velho Bush.
A crise econômica ainda trouxe uma dificuldade adicional aos republicanos, ampliando as contradições em que se debatem. A formidável intervenção governamental representada pelo pacote de resgate dos bancos, afinal aprovado ontem pela Câmara, encontrou uma base parlamentar bastante dividida entre os conceitos tradicionais do livre mercado e não-intervenção estatal e a necessidade de uma providência urgente para não deixar a economia entrar em colapso definitivo.
O pacote recebeu 91 votos republicanos a favor e 108 contrários, mostrando como o partido está rachado. Todas as circunstâncias estão contrárias ao Partido Republicano, e a crise econômica só fez explicitar uma situação que era pressentida desde o início da campanha presidencial: o vencedor da disputa interna do Partido Democrata seria naturalmente o eleito presidente dos Estados Unidos.
O fato de ter sido Barack Obama, e não a senadora Hillary Clinton, criou uma divisão interna no partido que está sendo superada com o tempo. Também o fato de Obama ser o primeiro negro com chances reais de chegar à Casa Branca colocou em xeque boa parte do eleitorado americano, que somente agora, com a crise mordendo seus calcanhares, começa a se decidir pela alternativa natural de mudança dos oito anos de gestão republicana.
Foi o bastante para que Obama batesse na tecla de que continuar com a mesma política econômica de Bush mais quatro anos seria desastroso. Previamente derrotada pelo pressentimento generalizado de que não resistiria à experiência e ao conhecimento de política externa do democrata Joe Biden, a candidata republicana Sarah Palin saiuse surpreendentemente bem, o que não quer dizer que esteja preparada para assumir o poder em caso de necessidade.
Palin mostrou-se uma simpática dona-de-casa de classe média, e esteve tão à vontade que foi irônica em diversas ocasiões, mesmo enfrentando um dos ícones do Senado americano. Estava tão senhora de si que acusou a proposta Obama-Biden para o Iraque de ser “uma bandeira branca de rendição”.
E foi sarcástica ao com e n t a r q u e “ v o c ê s d e Washington são engraçados”, ao se referir aos votos de Biden a favor de intervenções militares dos Estados Unidos, inclusive no Iraque, e sua defesa agora do fim da guerra.
Esse apelo ao patriotismo, e a defesa de valores morais mais conservadores, juntamente com sua juventude, foi o que a tornou um sucesso de público desde que escolhida, e poderia contrabalançar a força natural que os democratas sempre tiveram nesta corrida presidencial.
Mas a crise econômica tornou praticamente impossível a tática da campanha de McCain de distanciálo da gestão Bush, marcandoo, e depois a própria Palin, como políticos independentes dentro do Partido Republicano, longe das cúpulas que fazem politicagem em Washington.
Além do fato de que o “maverick” McCain votou s e m p re c o m o g o v e r n o Bush, como salientou muito bem Joe Biden durante o debate dos vices, é forçar muito a barra marcar sua candidatura como distante da cúpula partidária, quando há montes de cenas filmadas dele ora com o velho George Bush pai, ora com Kissinger, de quem se orgulha de ser amigo há 35 anos.
Nesse item, a própria Palin veste melhor esse figurino, mas ela estava distante da cúpula partidária não por opção, mas por questões geográficas e políticas.
O Alasca não é um estado importante que mereça a atenção no jogo político, e ela só entrou na luta principal por ser uma desconhecida, mas com jeito de miss.
Quando o foco da discussão pública, porém, passa a ser a economia, com os efeitos da crise chegando ao cidadão comum, é constrangedor o candidato do partido oficial prometer medidas e atitudes que não foram tomadas nos últimos oito anos, e nem foram exigidas por ele.
O fato concreto é que Bush chega ao final de seu mandato com uma popularidade em torno de 20%, a mais baixa de toda a história republicana, ao contrário do que aconteceu logo depois dos ataques de 2001.
Naquele período, ele recebeu a maior consagração popular registrada na história recente americana, tendo atingido índices nas pesquisas de opinião maiores ainda que os de seu pai, também na Guerra do Golfo.
Naquela altura, o sucesso do governo era tanto que o líder da maioria na Câmara, Tom DeLay, previa que a hegemonia dos republicanos poderia durar décadas.
Como seu pai, por causa sobretudo da economia, George Bush termina o governo pessimamente avaliado, uma gestão que é responsabilizada pela “morte da marca republicana”, que a escolha de Sarah Palin reavivou por alguns momentos.
Mesmo essa tentativa de ressurreição foi artificial, jogando a candidatura de McCain para a direita, que o rejeitava por ser considerado muito “liberal”.
As dificuldades começam por aí: o último exemplo de sucesso dos republicanos na Casa Branca possível para McCain e Sarah Palin lembrarem é Ronald Reagan, há 20 anos, enquanto os democratas têm na figura de Bill Clinton uma referência mais recente de sucesso, e justamente resolvendo os problemas econômicos deixados pelo velho Bush.
A crise econômica ainda trouxe uma dificuldade adicional aos republicanos, ampliando as contradições em que se debatem. A formidável intervenção governamental representada pelo pacote de resgate dos bancos, afinal aprovado ontem pela Câmara, encontrou uma base parlamentar bastante dividida entre os conceitos tradicionais do livre mercado e não-intervenção estatal e a necessidade de uma providência urgente para não deixar a economia entrar em colapso definitivo.
O pacote recebeu 91 votos republicanos a favor e 108 contrários, mostrando como o partido está rachado. Todas as circunstâncias estão contrárias ao Partido Republicano, e a crise econômica só fez explicitar uma situação que era pressentida desde o início da campanha presidencial: o vencedor da disputa interna do Partido Democrata seria naturalmente o eleito presidente dos Estados Unidos.
O fato de ter sido Barack Obama, e não a senadora Hillary Clinton, criou uma divisão interna no partido que está sendo superada com o tempo. Também o fato de Obama ser o primeiro negro com chances reais de chegar à Casa Branca colocou em xeque boa parte do eleitorado americano, que somente agora, com a crise mordendo seus calcanhares, começa a se decidir pela alternativa natural de mudança dos oito anos de gestão republicana.
OS ROSTOS DA CRISE - REVISTA VEJA
Na cadeia alimentar da crise
Quando se conversa com os personagens da crise,
percebe-se que havia uma farra em que todo mundo
– do americano sem renda nem emprego aos nababos
de Wall Street – sabia mas fingia não ver que alguma
coisa estava erradana cadeia alimentar da crise
André Petry, de Nova York

LORANCE, na foto à esquerda, começou a preparar sua aposentadoria e passou a comprar imóveis em Albuquerque, no Novo México. Gbadamassi (à dir.), nascido no Congo e morador dos EUA há onze anos, queria ser dono de todo o quarteirão onde mora. Cada um a seu modo tentava tirar vantagem da bolha imobiliária. Lorance não tem dinheiro para se aposentar. Gbadamassi já perdeu uma casa
"A minha idéia era ser dono do quarteirão inteiro."
O plano de Hamidou Gbadamassi é uma mostra das ambições desconcertantes que o mercado imobiliário americano liberou antes de explodir. Gbadamassi nasceu no Congo e, há onze anos, resolveu imigrar para os Estados Unidos. No seu primeiro trabalho, foi lavador de carros. Ganhava 3 dólares por hora. Depois, foi faxineiro de avião, até chegar a supervisor numa empresa aérea. Em 2002, Gbadamassi morava de aluguel, sua vida estava estabilizada e ele então resolveu apostar na casa própria. Em Newark, cidade próxima de Nova York, comprou um imóvel de 229.000 dólares com financiamento para pagar em trinta anos. Foi como um passe de mágica. Não teve de desembolsar um único centavo de entrada. Não teve de apresentar nem comprovante de renda. Em 2004, o mercado imobiliário seguia bombando, as casas eram bonitas e o dinheiro era fácil. Gbadamassi fez novo financiamento de trinta anos e comprou outra casa, de 485.000 dólares. No ano seguinte, fez um terceiro empréstimo e arrematou sua terceira casa, de 575.000 dólares. De casa em casa, o congolês estava erguendo seu pequeno império imobiliário. Nesse ritmo, em quinze anos, seria um barão do ramo imobiliário. Por que não?
Há um ano, o alicerce estremeceu. Os juros dos empréstimos começaram a subir e o mercado esfriou. Ninguém se interessou em comprar uma de suas casas. O único locatário que tinha decidiu se mudar. Gbadamassi, com as casas vazias e sem comprador à vista, ficou sem dinheiro para bancar os três empréstimos, cujas prestações somavam 14.000 dólares mensais. Ele é dono de uma loja de conveniência em Newark e faz bicos comprando e vendendo automóveis, mas nem de longe consegue arcar com seus compromissos. Deixou de pagar a terceira casa, que está em via de ser leiloada. "Estou 100% preocupado", diz, com semblante contraído. "O que vai acontecer em dois anos?" Quando se volta para Wall Street, o coração financeiro de Nova York e do mundo, as notícias que Gbadamassi recebe não são animadoras. "A crise está ficando cada dia pior", alarma-se. Dos 700 bilhões de dólares que o governo vai injetar em Wall Street, Gbadamassi não receberá um tostão. Ele sabe disso. E eis uma das razões pelas quais os americanos médios andam com ganas de Wall Street. Na crise, eles perdem a casa. Os nababos do mundo financeiro recebem ajuda oficial. Até quando perde Wall Street ganha.
Enquanto durou, foi farra para todo mundo. Megan Martyn é divorciada, tem 40 anos e três filhos. Recebe pensão de 750 dólares. De vez em quando, dá aula de dança do ventre e descola uns trocados ajudando na faxina de uma casa. Ela tem um perfil muito parecido com o que os americanos chamam de "ninja" (sigla para "no income, no job, no assets", ou "sem renda, sem emprego e sem bens"). Em 2002, Megan estava endividada, mas tinha uma casa centenária, de 1905, onde mora há mais de uma década. Seguiu o conselho de uma amiga e hipotecou o imóvel. Pediu 65 000 dólares. "Eles fizeram um arranjo criativo por lá", conta ela. "Na verdade, eles nem deviam ter me dado empréstimo. Eu não tenho renda, só pensão." Mas deram, e ela não se preocupou em ler o contrato direito. Queria que a prestação não passasse de 500 dólares e pensou que os juros fossem fixos. Tudo errado. Depois de dois anos, a taxa de juros começou a oscilar, já chegou perto dos 10% ao ano, e a prestação arranha a casa dos 800 dólares. Megan não paga a hipoteca desde janeiro, deve quase 10.000 dólares e teme ser despejada. Na frente da casa, uma modesta placa informa: "Vende-se". Ela quer 225.000 dólares. Em dois meses, apareceu só um casal de São Francisco. Visitou a casa e nunca mais voltou.

CASSANO chefiou em Londres uma filial da AIG, a gigante dos seguros, onde fez chover dinheiro. Era tanto dinheiro que os empregados da unidade, menos de 400, receberam 3,5 bilhões de dólares em bônus em sete anos. O paraíso de Cassano, erguido à base de operações altamente heterodoxas, começou a ruir, incinerou 25 bilhões de dólares e quase levou a AIG às portas da falência
A bolha era assim: havia uma impressão generalizada de que alguma coisa estava errada. Megan Martyn sabia que não podia pegar o empréstimo, mas pegou. Todo mundo, do americano que vive de bico ao magnata de Wall Street, aproveitou o que pôde. Alan Fishman, que construiu boa fama no mercado financeiro, entrou no capítulo final da farra – e deu-se bem. Na noite de 25 de setembro passado, Fishman estava sentado numa poltrona no vôo de Nova York para Seattle. Três semanas antes, ganhara um novo emprego. Fora contratado para dirigir o Washington Mutual, um dos mamutes do setor bancário americano. Sua missão era salvar o banco. Assinou um contrato polpudo. Entre salário, bônus, ações e gratificações diversas, receberia quase 20 milhões de dólares mesmo que sua missão fracassasse. Não teve tempo nem de falhar. Fishman só soube que o banco fora à falência e sua carcaça fora vendida por 1,9 bilhão de dólares para o JP Morgan quando desembarcou no aeroporto de Seattle, onde fica a sede da instituição. Estava sem emprego, mas 20 milhões de dólares mais rico. Pegou a bagagem na esteira do aeroporto e foi embora.
Outros foram fundo na farra, arriscando impérios de verdade. Joseph J. Cassano, 53 anos, sorrateiramente empurrou à beira da falência a AIG, a maior seguradora do mundo, com mais de 100 000 empregados em 130 países. Cassano, como chefe de uma modesta unidade da empresa em Londres, fez chover dinheiro. Ganhou tanto, mas tanto, que em sete anos sua unidade, com menos de 400 empregados, distribuiu 3,5 bilhões de dólares em gratificações. Quando o mundo começou a desabar, incinerou 25 bilhões de dólares. A diferença é que, hoje, ele mora numa bela casa de três andares na capital inglesa, pertinho da famosa loja Harrods. Ginger Lorance, 64, também apostou na farra. Faltando pouco tempo para se aposentar, fez um plano para a velhice. Com sua experiência de catorze anos como corretora de imóveis em Albuquerque, no Novo México, ela sabia que havia facilidades no mercado. Comprou um apartamento. Depois, outro. E mais um. E construiu uma casa. E depois outra. Fez empréstimos com juros fixos, mas não contou com um mercado desaquecido. Hoje os aluguéis rendem pouco, as vendas pararam. Em vez de fazer o pé-de-meia para aposentar-se, Lorance está sacando da aposentadoria para viver. "Sempre trabalhei duro, sempre tive dinheiro e fui responsável. É bizarro que eu esteja vivendo isso." Ela não faz idéia de quando poderá se aposentar.
Nas bolhas, todo mundo quer tirar sua casquinha. Alguns conseguem. Em Jersey City, a quinze minutos de metrô do sul de Manhattan, um casal de brasileiros não tem o que reclamar da crise. "Não dá nem vontade de sair daqui", diz a estudante de museologia Roberta Crelier, encantada com a parede roxa no fundo da sala, seu canto preferido no imóvel que ela e o marido, Felipe Lara, acabaram de comprar. Trocaram um aluguel de 1 200 dólares por uma prestação de 1 530, por trinta anos, com juros fixos. Empréstimo naquela base: só 10% de entrada e nem foi preciso apresentar comprovante de renda. "É como se você fosse comprar um computador na loja", diz Lara, que faz doutorado em composição na Universidade de Nova York. Outra brasileira, Ana Lúcia Barreto de Carvalho, 39 anos, formada em hotelaria no Rio de Janeiro, também está feliz da vida. Chegou aos Estados Unidos em 2000 e logo ficou atraída pelo mercado imobiliário. No ano seguinte, já tinha uma casa. Comprou por 68 000 dólares e vendeu por 135 000. Depois comprou outra casa por 335 000 reais e vendeu por 455 000. Chegou a adquirir três casas entre abril e outubro de 2006. Hoje é dona de dois imóveis e acha que o mercado frio é a hora de faturar. "Estou procurando outra casa, outra galinha-morta", diz ela.

SCHWARTZ deixou o Bear Stearns falido, mas nos seus catorze anos no banco embolsou mais de 160 milhões de dólares, saiu com uma indenização polpuda e seu nome ainda é disputado no mercado. O americano médio não compreende compensações tão generosas para o fracasso. Por isso, o pacote de 700 bilhões só foi aprovado com limites nos bônus pagos aos executivos de empresas que pegarem a ajuda oficial
Galinha-morta é o que James Dimon tem colecionado no mercado. Ele é o principal executivo do JP Morgan, que acaba de levar o que sobrou do Washington Mutual por menos de 2 bilhões de dólares. Antes, Dimon fez um negócio ainda mais luminoso: abocanhou a primeira grande vítima da crise, o Bear Stearns, um dos cinco maiores bancos de investimento que foram à lona em março passado, atulhado de créditos pobres. Numa sexta-feira, a ação do Bear Stearns valia perto de 30 dólares. Dois dias depois, em pleno domingo, Dimon levou o banco por 2 dólares a ação. O executivo do Bear Stearns, Alan Schwartz, fez um péssimo trabalho? No mercado financeiro, há movimentos heterodoxos. Só no período de 1993 a 2007, Schwartz embolsou mais de 160 milhões de dólares em bonificações no banco, e deixou a casa falida. Eis outro dado de estranhamento entre os príncipes de Wall Street e os ninjas da América: os bônus milionários. Num país construído na base da meritocracia, é duro engolir compensações robustas para quem foi à lona. Por isso, o socorro de 700 bilhões para Wall Street só foi aprovado depois que se criaram limites nas compensações pagas aos executivos de empresas que recorram à ajuda oficial. "A restrição às compensações financeiras não é saudável, mas é uma medida política para aplacar a ira pública", disse a VEJA Charles Elson, expert em governança corporativa da Universidade de Delaware. Pois é. Em casa onde falta pão, todos brigam e ninguém tem razão.
Quando se conversa com os personagens da crise,
percebe-se que havia uma farra em que todo mundo
– do americano sem renda nem emprego aos nababos
de Wall Street – sabia mas fingia não ver que alguma
coisa estava erradana cadeia alimentar da crise
André Petry, de Nova York

LORANCE, na foto à esquerda, começou a preparar sua aposentadoria e passou a comprar imóveis em Albuquerque, no Novo México. Gbadamassi (à dir.), nascido no Congo e morador dos EUA há onze anos, queria ser dono de todo o quarteirão onde mora. Cada um a seu modo tentava tirar vantagem da bolha imobiliária. Lorance não tem dinheiro para se aposentar. Gbadamassi já perdeu uma casa
"A minha idéia era ser dono do quarteirão inteiro."
O plano de Hamidou Gbadamassi é uma mostra das ambições desconcertantes que o mercado imobiliário americano liberou antes de explodir. Gbadamassi nasceu no Congo e, há onze anos, resolveu imigrar para os Estados Unidos. No seu primeiro trabalho, foi lavador de carros. Ganhava 3 dólares por hora. Depois, foi faxineiro de avião, até chegar a supervisor numa empresa aérea. Em 2002, Gbadamassi morava de aluguel, sua vida estava estabilizada e ele então resolveu apostar na casa própria. Em Newark, cidade próxima de Nova York, comprou um imóvel de 229.000 dólares com financiamento para pagar em trinta anos. Foi como um passe de mágica. Não teve de desembolsar um único centavo de entrada. Não teve de apresentar nem comprovante de renda. Em 2004, o mercado imobiliário seguia bombando, as casas eram bonitas e o dinheiro era fácil. Gbadamassi fez novo financiamento de trinta anos e comprou outra casa, de 485.000 dólares. No ano seguinte, fez um terceiro empréstimo e arrematou sua terceira casa, de 575.000 dólares. De casa em casa, o congolês estava erguendo seu pequeno império imobiliário. Nesse ritmo, em quinze anos, seria um barão do ramo imobiliário. Por que não?
Há um ano, o alicerce estremeceu. Os juros dos empréstimos começaram a subir e o mercado esfriou. Ninguém se interessou em comprar uma de suas casas. O único locatário que tinha decidiu se mudar. Gbadamassi, com as casas vazias e sem comprador à vista, ficou sem dinheiro para bancar os três empréstimos, cujas prestações somavam 14.000 dólares mensais. Ele é dono de uma loja de conveniência em Newark e faz bicos comprando e vendendo automóveis, mas nem de longe consegue arcar com seus compromissos. Deixou de pagar a terceira casa, que está em via de ser leiloada. "Estou 100% preocupado", diz, com semblante contraído. "O que vai acontecer em dois anos?" Quando se volta para Wall Street, o coração financeiro de Nova York e do mundo, as notícias que Gbadamassi recebe não são animadoras. "A crise está ficando cada dia pior", alarma-se. Dos 700 bilhões de dólares que o governo vai injetar em Wall Street, Gbadamassi não receberá um tostão. Ele sabe disso. E eis uma das razões pelas quais os americanos médios andam com ganas de Wall Street. Na crise, eles perdem a casa. Os nababos do mundo financeiro recebem ajuda oficial. Até quando perde Wall Street ganha.
Enquanto durou, foi farra para todo mundo. Megan Martyn é divorciada, tem 40 anos e três filhos. Recebe pensão de 750 dólares. De vez em quando, dá aula de dança do ventre e descola uns trocados ajudando na faxina de uma casa. Ela tem um perfil muito parecido com o que os americanos chamam de "ninja" (sigla para "no income, no job, no assets", ou "sem renda, sem emprego e sem bens"). Em 2002, Megan estava endividada, mas tinha uma casa centenária, de 1905, onde mora há mais de uma década. Seguiu o conselho de uma amiga e hipotecou o imóvel. Pediu 65 000 dólares. "Eles fizeram um arranjo criativo por lá", conta ela. "Na verdade, eles nem deviam ter me dado empréstimo. Eu não tenho renda, só pensão." Mas deram, e ela não se preocupou em ler o contrato direito. Queria que a prestação não passasse de 500 dólares e pensou que os juros fossem fixos. Tudo errado. Depois de dois anos, a taxa de juros começou a oscilar, já chegou perto dos 10% ao ano, e a prestação arranha a casa dos 800 dólares. Megan não paga a hipoteca desde janeiro, deve quase 10.000 dólares e teme ser despejada. Na frente da casa, uma modesta placa informa: "Vende-se". Ela quer 225.000 dólares. Em dois meses, apareceu só um casal de São Francisco. Visitou a casa e nunca mais voltou.

CASSANO chefiou em Londres uma filial da AIG, a gigante dos seguros, onde fez chover dinheiro. Era tanto dinheiro que os empregados da unidade, menos de 400, receberam 3,5 bilhões de dólares em bônus em sete anos. O paraíso de Cassano, erguido à base de operações altamente heterodoxas, começou a ruir, incinerou 25 bilhões de dólares e quase levou a AIG às portas da falência
A bolha era assim: havia uma impressão generalizada de que alguma coisa estava errada. Megan Martyn sabia que não podia pegar o empréstimo, mas pegou. Todo mundo, do americano que vive de bico ao magnata de Wall Street, aproveitou o que pôde. Alan Fishman, que construiu boa fama no mercado financeiro, entrou no capítulo final da farra – e deu-se bem. Na noite de 25 de setembro passado, Fishman estava sentado numa poltrona no vôo de Nova York para Seattle. Três semanas antes, ganhara um novo emprego. Fora contratado para dirigir o Washington Mutual, um dos mamutes do setor bancário americano. Sua missão era salvar o banco. Assinou um contrato polpudo. Entre salário, bônus, ações e gratificações diversas, receberia quase 20 milhões de dólares mesmo que sua missão fracassasse. Não teve tempo nem de falhar. Fishman só soube que o banco fora à falência e sua carcaça fora vendida por 1,9 bilhão de dólares para o JP Morgan quando desembarcou no aeroporto de Seattle, onde fica a sede da instituição. Estava sem emprego, mas 20 milhões de dólares mais rico. Pegou a bagagem na esteira do aeroporto e foi embora.
Outros foram fundo na farra, arriscando impérios de verdade. Joseph J. Cassano, 53 anos, sorrateiramente empurrou à beira da falência a AIG, a maior seguradora do mundo, com mais de 100 000 empregados em 130 países. Cassano, como chefe de uma modesta unidade da empresa em Londres, fez chover dinheiro. Ganhou tanto, mas tanto, que em sete anos sua unidade, com menos de 400 empregados, distribuiu 3,5 bilhões de dólares em gratificações. Quando o mundo começou a desabar, incinerou 25 bilhões de dólares. A diferença é que, hoje, ele mora numa bela casa de três andares na capital inglesa, pertinho da famosa loja Harrods. Ginger Lorance, 64, também apostou na farra. Faltando pouco tempo para se aposentar, fez um plano para a velhice. Com sua experiência de catorze anos como corretora de imóveis em Albuquerque, no Novo México, ela sabia que havia facilidades no mercado. Comprou um apartamento. Depois, outro. E mais um. E construiu uma casa. E depois outra. Fez empréstimos com juros fixos, mas não contou com um mercado desaquecido. Hoje os aluguéis rendem pouco, as vendas pararam. Em vez de fazer o pé-de-meia para aposentar-se, Lorance está sacando da aposentadoria para viver. "Sempre trabalhei duro, sempre tive dinheiro e fui responsável. É bizarro que eu esteja vivendo isso." Ela não faz idéia de quando poderá se aposentar.
Nas bolhas, todo mundo quer tirar sua casquinha. Alguns conseguem. Em Jersey City, a quinze minutos de metrô do sul de Manhattan, um casal de brasileiros não tem o que reclamar da crise. "Não dá nem vontade de sair daqui", diz a estudante de museologia Roberta Crelier, encantada com a parede roxa no fundo da sala, seu canto preferido no imóvel que ela e o marido, Felipe Lara, acabaram de comprar. Trocaram um aluguel de 1 200 dólares por uma prestação de 1 530, por trinta anos, com juros fixos. Empréstimo naquela base: só 10% de entrada e nem foi preciso apresentar comprovante de renda. "É como se você fosse comprar um computador na loja", diz Lara, que faz doutorado em composição na Universidade de Nova York. Outra brasileira, Ana Lúcia Barreto de Carvalho, 39 anos, formada em hotelaria no Rio de Janeiro, também está feliz da vida. Chegou aos Estados Unidos em 2000 e logo ficou atraída pelo mercado imobiliário. No ano seguinte, já tinha uma casa. Comprou por 68 000 dólares e vendeu por 135 000. Depois comprou outra casa por 335 000 reais e vendeu por 455 000. Chegou a adquirir três casas entre abril e outubro de 2006. Hoje é dona de dois imóveis e acha que o mercado frio é a hora de faturar. "Estou procurando outra casa, outra galinha-morta", diz ela.

SCHWARTZ deixou o Bear Stearns falido, mas nos seus catorze anos no banco embolsou mais de 160 milhões de dólares, saiu com uma indenização polpuda e seu nome ainda é disputado no mercado. O americano médio não compreende compensações tão generosas para o fracasso. Por isso, o pacote de 700 bilhões só foi aprovado com limites nos bônus pagos aos executivos de empresas que pegarem a ajuda oficial
Galinha-morta é o que James Dimon tem colecionado no mercado. Ele é o principal executivo do JP Morgan, que acaba de levar o que sobrou do Washington Mutual por menos de 2 bilhões de dólares. Antes, Dimon fez um negócio ainda mais luminoso: abocanhou a primeira grande vítima da crise, o Bear Stearns, um dos cinco maiores bancos de investimento que foram à lona em março passado, atulhado de créditos pobres. Numa sexta-feira, a ação do Bear Stearns valia perto de 30 dólares. Dois dias depois, em pleno domingo, Dimon levou o banco por 2 dólares a ação. O executivo do Bear Stearns, Alan Schwartz, fez um péssimo trabalho? No mercado financeiro, há movimentos heterodoxos. Só no período de 1993 a 2007, Schwartz embolsou mais de 160 milhões de dólares em bonificações no banco, e deixou a casa falida. Eis outro dado de estranhamento entre os príncipes de Wall Street e os ninjas da América: os bônus milionários. Num país construído na base da meritocracia, é duro engolir compensações robustas para quem foi à lona. Por isso, o socorro de 700 bilhões para Wall Street só foi aprovado depois que se criaram limites nas compensações pagas aos executivos de empresas que recorram à ajuda oficial. "A restrição às compensações financeiras não é saudável, mas é uma medida política para aplacar a ira pública", disse a VEJA Charles Elson, expert em governança corporativa da Universidade de Delaware. Pois é. Em casa onde falta pão, todos brigam e ninguém tem razão.
OS PLANOS A E B DOS GESTORES - REVISTA VEJA
Os planos A e B dos melhores gestores de dinheiro do Brasil
"Tem muita coisa boa, a bons preços"
Armínio Fraga, o principal sócio da Gávea Investimentos

"Tem muita coisa boa, a bons preços"
Nas últimas duas semanas, enquanto a crise mundial recrudescia, derrubando bolsas e secando o crédito, a Gávea Investimentos, gestora de recursos administrada pelo ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, foi às compras. No começo da semana, comprou, juntamente com outro fundo, 30% da rede de farmácias Droga Raia. Na quinta-feira, anunciou que, por 130 milhões de dólares, levará uma fatia da Cosan, líder mundial no mercado de álcool. Embora com grande potencial de crescimento, Droga Raia e Cosan tiveram seus planos de expansão atrapalhados pela recente aversão ao risco de investidores e banqueiros. A primeira teve de suspender seu projeto de lançar ações na bolsa. A Cosan, por seu turno, faz parte de um setor extremamente dependente de empréstimos. Armínio farejou as dificuldades de ambas e ofereceu a solução – usou, para isso, os 7,6 bilhões de dólares de patrimônio de seus fundos. Ele contou a VEJA como pretende atravessar este período de crise:
"A turbulência global assusta e recomenda cautela. Para quem tem horizonte de longo prazo e estômago para as oscilações, há coisas boas para comprar, sem alavancagem e sem pressa. Para quem não tem, o melhor é aguardar um momento mais tranqüilo e, durante a espera, investir em renda fixa de curto prazo e baixo risco. Resumo: o momento é realmente mais arriscado, mas há muitos ativos a bons preços para os mais ousados. Há um ano, o risco já era razoável, mas os preços não tão bons. Hoje, embora o risco seja maior, os preços estão deprimidos. De qualquer forma, como a incerteza é grande, um porcentual grande em investimentos mais conservadores é recomendável".

"Tem muita coisa boa, a bons preços"
Armínio Fraga, o principal sócio da Gávea Investimentos

"Tem muita coisa boa, a bons preços"
Nas últimas duas semanas, enquanto a crise mundial recrudescia, derrubando bolsas e secando o crédito, a Gávea Investimentos, gestora de recursos administrada pelo ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, foi às compras. No começo da semana, comprou, juntamente com outro fundo, 30% da rede de farmácias Droga Raia. Na quinta-feira, anunciou que, por 130 milhões de dólares, levará uma fatia da Cosan, líder mundial no mercado de álcool. Embora com grande potencial de crescimento, Droga Raia e Cosan tiveram seus planos de expansão atrapalhados pela recente aversão ao risco de investidores e banqueiros. A primeira teve de suspender seu projeto de lançar ações na bolsa. A Cosan, por seu turno, faz parte de um setor extremamente dependente de empréstimos. Armínio farejou as dificuldades de ambas e ofereceu a solução – usou, para isso, os 7,6 bilhões de dólares de patrimônio de seus fundos. Ele contou a VEJA como pretende atravessar este período de crise:
"A turbulência global assusta e recomenda cautela. Para quem tem horizonte de longo prazo e estômago para as oscilações, há coisas boas para comprar, sem alavancagem e sem pressa. Para quem não tem, o melhor é aguardar um momento mais tranqüilo e, durante a espera, investir em renda fixa de curto prazo e baixo risco. Resumo: o momento é realmente mais arriscado, mas há muitos ativos a bons preços para os mais ousados. Há um ano, o risco já era razoável, mas os preços não tão bons. Hoje, embora o risco seja maior, os preços estão deprimidos. De qualquer forma, como a incerteza é grande, um porcentual grande em investimentos mais conservadores é recomendável".

WARREN BUFFET: O ULTIMO CAPITALISTA - REVISTA VEJA
Príncipe pelo preço de sapo
Onde todo mundo via problemas, ele enxergou
oportunidades. Warren Buffett não fez nada de novo.
Foi assim que ele construiu sua fortuna
Giuliano Guandalini

NA ETERNA CONTRAMÃO
Warren Buffett e sua receita para tornar-se uma lenda do capitalismo: "Seja audacioso quando
os outros estiverem com medo e tenha medo quando os outros forem audaciosos"
Desde que a crise financeira se aprofundou, há um mês, investidores ao redor do mundo venderam seus ativos para recolher-se à segurança dos títulos americanos. Enquanto isso, a empresa de investimentos comandada pelo lendário investidor Warren Buffett, a Berkshire Hathaway, fez o caminho inverso: despejou 20 bilhões de dólares na compra de participação em grandes companhias do país. Buffett colocou 3 bilhões de dólares na General Electric (GE), um dos maiores conglomerados industriais do mundo. Esse investimento se soma aos 5 bilhões de dólares injetados no banco Goldman Sachs (ações pelas quais ele pagou metade do preço registrado um ano atrás) e a outros 5 bilhões aplicados na empresa de energia Constellation (com desconto de três quartos diante do valor no início do ano). Além dessas aquisições diretas, Buffett financiou 6,5 bilhões de dólares para a compra da Wrigley pela fabricante de chocolates Mars.
Buffett, em suma, foi às compras num dia frio e de chuva, enquanto os outros consumidores se esconderam sob os cobertores. Com isso, em dias de crédito escasso, tornou-se, ao lado do Federal Reserve, o banco central americano, um dos maiores emprestadores de última instância do capitalismo americano. Não será surpresa se, passada a turbulência, esses investimentos se mostrarem extremamente rentáveis. Foi justamente tirando proveito das pechinchas oferecidas em períodos de instabilidade financeira que Buffett construiu sua fortuna, multiplicou o dinheiro de seus acionistas e contribuiu para revigorar o capitalismo americano, ao longo de mais de cinco décadas dedicadas ao mercado financeiro. Valer-se do momento de pânico e de incongruências do mercado está na raiz de sua filosofia de investimentos. Buffett faz dinheiro, muito dinheiro, apostando contra a maré, encontrando companhias que possuem um valor intrínseco e que estejam depreciadas por fatores exógenos, conjunturais – Buffett diz gostar de "comprar príncipes pelo preço de sapos".
Foi essa estratégia que levou a Berkshire Hathaway a tornar-se sócia de alguns dos principais ícones da indústria americana, como a Coca-Cola e a Gillette. Buffett sente-se confortável negociando ações da economia real. Tecnologia não é com ele, apesar de sua amizade íntima com Bill Gates, o fundador da Microsoft. O investidor não caiu na euforia da internet, na década passada, e fugiu das ações da "nova economia". As empresas da internet eram algo novo demais e arriscado demais, na avaliação de Buffett. Quando a bolha da internet explodiu, em 2000, o investidor, que chegou a ser ridicularizado por ser "ultrapassado", acabou rindo por último. A Berkshire Hathaway saiu mais fortalecida do que nunca.
Buffett, hoje com 78 anos, ingressou no mundo dos negócios ainda criança. Segundo a biografia autorizada The Snowball: Warren Buffett and the Business of Life, escrita por Alice Schroeder e lançada nos Estados Unidos na semana passada, seus primeiros trocados vieram logo aos 6 anos de idade. O pequeno Warren comprava pacotes de bala e goma de mascar na loja de seu avô. Depois, em vez de devorá-los, revendia-os pelas ruas. As marcas de doce prediletas do garoto eram Juicy Fruit e Spearmint, produzidas justamente pela centenária fábrica Wrigley, cuja venda foi financiada por Buffett na semana passada.
O apreço pelo mundo das finanças também veio cedo. Seu pai trabalhava em um banco e seus tios tinham uma corretora de ações. Ainda criança, Buffett tentava identificar um padrão observando a oscilação do preço das ações no quadro pendurado no escritório de seus tios. Na adolescência, começou a ler manuais de como ganhar dinheiro na bolsa. Mas o livro que transformou definitivamente sua vida foi The Intelligent Investor, do investidor e professor da Universidade Colúmbia Benjamin Graham, lançado em 1949. Ali, pela primeira vez, Buffett vislumbrou um método coerente de ganhar dinheiro com ações. A leitura o estimulou a ir estudar em Colúmbia, onde foi admitido em 1950. Lá, teve aulas com Graham e David Dodd, outro grande investidor daquele período. Buffett chegou a trabalhar em Nova York com seus mestres, mas seu sucesso veio mesmo quando retornou para a sua Omaha natal, no estado de Nebraska, onde vive até hoje – e com uma rotina para lá de simples para o homem mais rico do mundo.
Frasista inspirado, Buffett é o autor de tiradas que fazem parte do anedotário da crise atual. Alguns anos atrás, quando o mundo ainda vendia euforia, soltou ele: "Só saberemos quem está sem roupas quando a maré baixar". Touché. Em 2003, Buffett, em carta aos acionistas, alertou para o risco do crescimento de investimentos em derivativos (instrumentos financeiros destinados a dissipar riscos, mas que foram usados de maneira imprópria e alavancaram a bolha que acaba de estourar). "Uma grande quantidade de risco foi concentrada nas mãos de relativamente poucos vendedores de contratos de derivativos, o que pode desencadear graves problemas sistêmicos", afirmou. E sentenciou: "Derivativos são armas financeiras de destruição em massa". Touché mais uma vez, e mais uma vez o investidor saiu maior de uma crise do que quando entrou nela.
Remar contra a maré em pleno tsunami não é para qualquer um. Os poucos que o fazem – com a competência de Buffett, é claro – são sobejamente recompensados.
Onde todo mundo via problemas, ele enxergou
oportunidades. Warren Buffett não fez nada de novo.
Foi assim que ele construiu sua fortuna
Giuliano Guandalini

NA ETERNA CONTRAMÃO
Warren Buffett e sua receita para tornar-se uma lenda do capitalismo: "Seja audacioso quando
os outros estiverem com medo e tenha medo quando os outros forem audaciosos"
Desde que a crise financeira se aprofundou, há um mês, investidores ao redor do mundo venderam seus ativos para recolher-se à segurança dos títulos americanos. Enquanto isso, a empresa de investimentos comandada pelo lendário investidor Warren Buffett, a Berkshire Hathaway, fez o caminho inverso: despejou 20 bilhões de dólares na compra de participação em grandes companhias do país. Buffett colocou 3 bilhões de dólares na General Electric (GE), um dos maiores conglomerados industriais do mundo. Esse investimento se soma aos 5 bilhões de dólares injetados no banco Goldman Sachs (ações pelas quais ele pagou metade do preço registrado um ano atrás) e a outros 5 bilhões aplicados na empresa de energia Constellation (com desconto de três quartos diante do valor no início do ano). Além dessas aquisições diretas, Buffett financiou 6,5 bilhões de dólares para a compra da Wrigley pela fabricante de chocolates Mars.
Buffett, em suma, foi às compras num dia frio e de chuva, enquanto os outros consumidores se esconderam sob os cobertores. Com isso, em dias de crédito escasso, tornou-se, ao lado do Federal Reserve, o banco central americano, um dos maiores emprestadores de última instância do capitalismo americano. Não será surpresa se, passada a turbulência, esses investimentos se mostrarem extremamente rentáveis. Foi justamente tirando proveito das pechinchas oferecidas em períodos de instabilidade financeira que Buffett construiu sua fortuna, multiplicou o dinheiro de seus acionistas e contribuiu para revigorar o capitalismo americano, ao longo de mais de cinco décadas dedicadas ao mercado financeiro. Valer-se do momento de pânico e de incongruências do mercado está na raiz de sua filosofia de investimentos. Buffett faz dinheiro, muito dinheiro, apostando contra a maré, encontrando companhias que possuem um valor intrínseco e que estejam depreciadas por fatores exógenos, conjunturais – Buffett diz gostar de "comprar príncipes pelo preço de sapos".
Foi essa estratégia que levou a Berkshire Hathaway a tornar-se sócia de alguns dos principais ícones da indústria americana, como a Coca-Cola e a Gillette. Buffett sente-se confortável negociando ações da economia real. Tecnologia não é com ele, apesar de sua amizade íntima com Bill Gates, o fundador da Microsoft. O investidor não caiu na euforia da internet, na década passada, e fugiu das ações da "nova economia". As empresas da internet eram algo novo demais e arriscado demais, na avaliação de Buffett. Quando a bolha da internet explodiu, em 2000, o investidor, que chegou a ser ridicularizado por ser "ultrapassado", acabou rindo por último. A Berkshire Hathaway saiu mais fortalecida do que nunca.
Buffett, hoje com 78 anos, ingressou no mundo dos negócios ainda criança. Segundo a biografia autorizada The Snowball: Warren Buffett and the Business of Life, escrita por Alice Schroeder e lançada nos Estados Unidos na semana passada, seus primeiros trocados vieram logo aos 6 anos de idade. O pequeno Warren comprava pacotes de bala e goma de mascar na loja de seu avô. Depois, em vez de devorá-los, revendia-os pelas ruas. As marcas de doce prediletas do garoto eram Juicy Fruit e Spearmint, produzidas justamente pela centenária fábrica Wrigley, cuja venda foi financiada por Buffett na semana passada.
O apreço pelo mundo das finanças também veio cedo. Seu pai trabalhava em um banco e seus tios tinham uma corretora de ações. Ainda criança, Buffett tentava identificar um padrão observando a oscilação do preço das ações no quadro pendurado no escritório de seus tios. Na adolescência, começou a ler manuais de como ganhar dinheiro na bolsa. Mas o livro que transformou definitivamente sua vida foi The Intelligent Investor, do investidor e professor da Universidade Colúmbia Benjamin Graham, lançado em 1949. Ali, pela primeira vez, Buffett vislumbrou um método coerente de ganhar dinheiro com ações. A leitura o estimulou a ir estudar em Colúmbia, onde foi admitido em 1950. Lá, teve aulas com Graham e David Dodd, outro grande investidor daquele período. Buffett chegou a trabalhar em Nova York com seus mestres, mas seu sucesso veio mesmo quando retornou para a sua Omaha natal, no estado de Nebraska, onde vive até hoje – e com uma rotina para lá de simples para o homem mais rico do mundo.
Frasista inspirado, Buffett é o autor de tiradas que fazem parte do anedotário da crise atual. Alguns anos atrás, quando o mundo ainda vendia euforia, soltou ele: "Só saberemos quem está sem roupas quando a maré baixar". Touché. Em 2003, Buffett, em carta aos acionistas, alertou para o risco do crescimento de investimentos em derivativos (instrumentos financeiros destinados a dissipar riscos, mas que foram usados de maneira imprópria e alavancaram a bolha que acaba de estourar). "Uma grande quantidade de risco foi concentrada nas mãos de relativamente poucos vendedores de contratos de derivativos, o que pode desencadear graves problemas sistêmicos", afirmou. E sentenciou: "Derivativos são armas financeiras de destruição em massa". Touché mais uma vez, e mais uma vez o investidor saiu maior de uma crise do que quando entrou nela.
Remar contra a maré em pleno tsunami não é para qualquer um. Os poucos que o fazem – com a competência de Buffett, é claro – são sobejamente recompensados.
ANDRE PETRY - REVISTA VEJA
Sarah Palin, o erro
" Sarah Palin está preparada para presidir
os EUA? As pesquisas dizem que não. Dá para
entender. Quando abre a boca, Sarah Palin
faz Bush parecer um Sócrates"
Sarah Palin é um fenômeno estrondoso, raro. Quando compareceu à convenção republicana, roubou a cena, hipnotizou a platéia e levantou John McCain nas pesquisas eleitorais. Os comícios republicanos, que sempre tiveram mais espaço que gente, começaram a lotar. Ela é um sucesso na Wikipédia (6 milhões de consultas no seu verbete em um mês) e no YouTube (4,5 milhões de acessos a um vídeo em que é satirizada por uma comediante). Na quinta-feira, Sarah ficou frente a frente com o veterano democrata Joe Biden, no primeiro e último debate entre candidatos a vice. Sua presença fez a audiência disparar. Nunca um debate entre vices chamara tanta atenção. Sarah Palin é um fenômeno estrondoso, raro.
E sua escolha pode ter sido o erro fatal de McCain.
Primeiro, porque o que interessava aos republicanos era transformar a campanha num plebiscito sobre o democrata Barack Obama. Era o que estava acontecendo. Quando Sarah entrou em cena, com seu carisma e exuberância, mudou a dinâmica da disputa. Obama deixou de ser a novidade, o jovem, o negro. Também havia, do outro lado, uma novidade, uma jovem, uma mulher. Parecia bom para os republicanos. O problema é que, ao se colocar no centro do palco, deslocando a atenção plebiscitária de Obama, Sarah jogou luz sobre si mesma. E aí começa o outro aspecto do erro de McCain: quanto mais o eleitor conhece Sarah Palin, menos confia nela.
Depois de sua aparição nacional, 45% achavam-na despreparada para, eventualmente, virar presidente. Na semana passada, eram 60%. Os republicanos esperneiam. Dizem que há uma campanha da imprensa para desqualificá-la (soa familiar?). Numa entrevista, Sarah não soube dizer qual é a importância de governar o estado americano (o Alasca) mais próximo da Rússia. Não soube mencionar uma decisão da Suprema Corte da qual discorde, além da que legalizou o aborto nos anos 70. Com tamanho potencial autodestrutivo, seria preciso orquestrar uma campanha para desqualificá-la? Do debate, Sarah saiu elogiada porque seu desempenho não foi desastroso, e não dizimou a candidatura de McCain, como alguns republicanos temiam. É divertido um candidato ser aplaudido porque não deu vexame.
Sarah Palin entrou na chapa de McCain com dois objetivos. Um era atrair o voto feminino de democratas e independentes insatisfeitas com a derrota de Hillary Clinton – o que ela não conseguiu. O outro objetivo era energizar os republicanos da direita religiosa que torciam o nariz para McCain – o que ela conseguiu. O problema é que o eleitor começou a levá-la a sério. E começou a perguntar: além de tentar cabalar o voto feminino e açular os instintos mais regressivos da direita religiosa, Sarah está preparada para presidir os EUA em caso de morte ou renúncia do titular?
As pesquisas mostram que a resposta majoritária é não. Dá para entender. Quando abre a boca, Sarah Palin faz o presidente George W. Bush parecer um Sócrates.
" Sarah Palin está preparada para presidir
os EUA? As pesquisas dizem que não. Dá para
entender. Quando abre a boca, Sarah Palin
faz Bush parecer um Sócrates"
Sarah Palin é um fenômeno estrondoso, raro. Quando compareceu à convenção republicana, roubou a cena, hipnotizou a platéia e levantou John McCain nas pesquisas eleitorais. Os comícios republicanos, que sempre tiveram mais espaço que gente, começaram a lotar. Ela é um sucesso na Wikipédia (6 milhões de consultas no seu verbete em um mês) e no YouTube (4,5 milhões de acessos a um vídeo em que é satirizada por uma comediante). Na quinta-feira, Sarah ficou frente a frente com o veterano democrata Joe Biden, no primeiro e último debate entre candidatos a vice. Sua presença fez a audiência disparar. Nunca um debate entre vices chamara tanta atenção. Sarah Palin é um fenômeno estrondoso, raro.
E sua escolha pode ter sido o erro fatal de McCain.
Primeiro, porque o que interessava aos republicanos era transformar a campanha num plebiscito sobre o democrata Barack Obama. Era o que estava acontecendo. Quando Sarah entrou em cena, com seu carisma e exuberância, mudou a dinâmica da disputa. Obama deixou de ser a novidade, o jovem, o negro. Também havia, do outro lado, uma novidade, uma jovem, uma mulher. Parecia bom para os republicanos. O problema é que, ao se colocar no centro do palco, deslocando a atenção plebiscitária de Obama, Sarah jogou luz sobre si mesma. E aí começa o outro aspecto do erro de McCain: quanto mais o eleitor conhece Sarah Palin, menos confia nela.
Depois de sua aparição nacional, 45% achavam-na despreparada para, eventualmente, virar presidente. Na semana passada, eram 60%. Os republicanos esperneiam. Dizem que há uma campanha da imprensa para desqualificá-la (soa familiar?). Numa entrevista, Sarah não soube dizer qual é a importância de governar o estado americano (o Alasca) mais próximo da Rússia. Não soube mencionar uma decisão da Suprema Corte da qual discorde, além da que legalizou o aborto nos anos 70. Com tamanho potencial autodestrutivo, seria preciso orquestrar uma campanha para desqualificá-la? Do debate, Sarah saiu elogiada porque seu desempenho não foi desastroso, e não dizimou a candidatura de McCain, como alguns republicanos temiam. É divertido um candidato ser aplaudido porque não deu vexame.
Sarah Palin entrou na chapa de McCain com dois objetivos. Um era atrair o voto feminino de democratas e independentes insatisfeitas com a derrota de Hillary Clinton – o que ela não conseguiu. O outro objetivo era energizar os republicanos da direita religiosa que torciam o nariz para McCain – o que ela conseguiu. O problema é que o eleitor começou a levá-la a sério. E começou a perguntar: além de tentar cabalar o voto feminino e açular os instintos mais regressivos da direita religiosa, Sarah está preparada para presidir os EUA em caso de morte ou renúncia do titular?
As pesquisas mostram que a resposta majoritária é não. Dá para entender. Quando abre a boca, Sarah Palin faz o presidente George W. Bush parecer um Sócrates.
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